terça-feira, 18 de setembro de 2012


Põe quanto És no Mínimo que Fazes


Para ser grande, sê inteiro: nada 
          Teu exagera ou exclui. 

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és 
          No mínimo que fazes. 

Assim em cada lago a lua toda 
          Brilha, porque alta vive 

Ricardo Reis, in "Odes" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

FORÇA

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Fernando Pessoa e o auto - conhecimento


LIBERDADE



                              Laugavegurinn/Fimmvörðuháls Pass, Iceland

                                                                                                  foto de  Libin Abraham
Liberdade




Ai que prazer 
Não cumprir um dever, 
Ter um livro para ler 
E não fazer! 
Ler é maçada, 
Estudar é nada. 
Sol doira 
Sem literatura 
O rio corre, bem ou mal, 
Sem edição original. 
E a brisa, essa, 
De tão naturalmente matinal, 
Como o tempo não tem pressa... 

Livros são papéis pintados com tinta. 
Estudar é uma coisa em que está indistinta 
A distinção entre nada e coisa nenhuma. 

Quanto é melhor, quanto há bruma, 
Esperar por D.Sebastião, 
Quer venha ou não! 

Grande é a poesia, a bondade e as danças... 
Mas o melhor do mundo são as crianças, 

Flores, música, o luar, e o sol, que peca 
Só quando, em vez de criar, seca. 

Mais que isto 
É Jesus Cristo, 
Que não sabia nada de finanças 
Nem consta que tivesse biblioteca... 

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

terça-feira, 31 de julho de 2012

BELEZA









À Beleza


 Não tens corpo, nem pátria, nem família, 
 Não te curvas ao jugo dos tiranos. 
 Não tens preço na terra dos humanos, 
 Nem o tempo te rói. 
 És a essência dos anos,
 O que vem e o que foi.

 És a carne dos deuses, 
 O sorriso das pedras, 
 E a candura do instinto. 
 És aquele alimento 
 De quem, farto de pão, anda faminto.


 És a graça da vida em toda a parte, 
 Ou em arte,
 Ou em simples verdade. 
 És o cravo vermelho, 
 Ou a moça no espelho, 
 Que depois de te ver se persuade.


 És um verso perfeito
 Que traz consigo a força do que diz.
 És o jeito
 Que tem, antes de mestre, o aprendiz.


 És a beleza, enfim.
 És o teu nome.
 Um milagre, uma luz, uma harmonia,
 Uma linha sem traço... 
 Mas sem corpo, sem pátria e sem família, 
 Tudo repousa em paz no teu regaço.


Miguel Torga "Odes"
 Miguel Torga, in 'Odes'